Existem poucas verdades absolutas na vida. Uma delas é que “você vai errar”. O erro é inevitável e, como dizem alguns, “só nunca errou quem nunca tentou”.

Dizer que “o erro precisa ser considerado” em modelos de negócios e de investimentos é dizer o óbvio. Qualquer manualzinho mequetrefe usado em alguma escola de administração para analfabetos funcionais já vai dizer isso.

Mas essa visão mais “senso comum” considera o erro como um risco, como algo que deve ser evitado. Porém, temos limites nessa coisa de “evitar erros”. Qualquer processo repetitivo e iterativo vai apresentar um erro em algum lugar (aliás, na Natureza, a evolução funciona desse jeito – erros acontecem e se revelam “acertos” em algumas situações).

Alguns executivos, líderes e investidores se gabam de “nunca terem errado”. O que se pode dizer dessas pessoas (assumindo que não estejam mentindo) é, apenas, que a hora delas ainda não chegou…

No mundo das finanças e dos investimentos (que é a minha área de origem) tem bastante gente que diz nunca ter errado. O menosprezo pelo erro leva ao excesso de autoconfiança, que leva a grandes exposições aos riscos e que leva, no final, a grandes catástrofes. Curiosamente, grandes “quebras” foram causadas por pessoas que se orgulhavam de nunca errar (ou de errarem pouco).

Expectativa Matemática Positiva

Os investidores e traders mais bem-sucedidos que eu já conheci se baseiam num conceito conhecido como “Expectativa Matemática Positiva”. O conceito foi popularizado pelo Van K. Tharp (o cara da foto aí embaixo), um psicólogo americano e autor especializado em trading e gerenciamento de riscos em operações financeiras. Se eu tivesse que explicar, em poucas palavras, diria que expectativa matemática positiva é você ter um conjunto de regras (um “sistema”, se preferir) que te permita tomar decisões de uma tal forma que, num prazo maior, você terá mais ganhos do que perdas. Ou seja, é aceitar que você vai errar, mas tentar “acertar mais do que erra”.

Van K. Tharp, autor de livros sobre investimentos

Porém, essa forma superficial e “capenga” de explicar não dá a real dimensão da sofisticação do conceito. Não é simplesmente “acertar mais do que erra”. É ganhar mais do que perde (ou seja, ter um resultado líquido positivo), mas, mais importante, com riscos controlados, de tal forma que não se “morra” no caminho.

A expectativa matemática positiva considera dois fatores: Frequência e impacto. A frequência diz respeito à quantidade de vezes que a “tese” na qual seu modelo se baseia estará correta. O impacto é o que acontece, em termos de ganhos e perdas, cada vez que se erra ou se acerta.

Aqui, já dá para perceber que o “erro” faz parte do modelo. Ele não é um “risco”, e sim um “componente” do modelo. Ele simplesmente “está lá” e não pode ser evitado. O máximo que podemos fazer é minimizar seu impacto.

Então, não é apenas uma questão de “acertar mais do que se erra”, pois o impacto acaba sendo mais importante do que a frequência.

Eu já vi modelos sistematizados de investimentos (muitos são até comercializados por instituições financeiras como sofisticados “robôs de investimentos”) que acertam 90% das vezes. Porém, quando acertam, ganham uma “merreca”. Quando chega a vez daqueles 10% em que ele erra, o investidor quebra. Para quem vende essa milagrosa “máquina de fazer dinheiro”, dizer que o modelo acerta 90% das vezes não é mentira, mas, obviamente, o impacto está oculto nessa informação. Quem trabalha com um modelo assim está “sentado em um barril de pólvora”.

Por outro lado, alguns modelos de investimentos baseados em rastreamento de tendências de mercado (conhecidos como trend following, no jargão) têm frequências de acerto que podem ficar abaixo de 20%. Um sistema “típico” desses costuma ter um índice de acertos na faixa de 30% (e olhe lá!).

No entanto, esses modelos ganham dinheiro! E conseguem ganhar porque, nesses 20% ou 30% de vezes em que acertam, ganham muito. Nas outras vezes, as perdas são limitadas e controladas.

Ou seja, num modelo de investimentos vitorioso, o importante não é “não errar”. Mas sim limitar as perdas quando uma decisão qualquer se revela um erro.

Aprendendo com os jogadores de pôquer

No mundo dos investimentos, se estuda muito sobre riscos, incertezas e probabilidades. Porém, uma das áreas que mais contribuíram para o refinamento desse conceito de “expectativa matemática positiva” é, surpreendentemente, o pôquer.

Cartas e fichas de pôquer

Não sei se você joga pôquer (disclaimer: eu não jogo) ou se já assistiu a um jogo de pôquer jogado por profissionais. Os jogadores profissionais costumam ser exatamente o oposto daquele jogador estereotipado de filmes de Hollywood, que vai todo confiante para a mesa de jogo e dá all in quando sente que tem uma grande oportunidade nas mãos. Essa coisa meio “jamesbondiana” faz parte do mundo da fantasia e, na vida real, jogadores com essa postura costumam ter vida curta.

Um jogador profissional de sucesso costuma ser obsessivo com o money management. Ele trabalha com a probabilidade de vitória de cada mão (frequência) e faz suas apostas baseadas em uma série de travas e limites, cujo maior objetivo é minimizar o impacto negativo caso aquela “mão” se revele perdedora.

Observe que, em nenhum momento, falei em “não errar”. Não dá para evitar o erro neste caso, pois a informação é assimétrica, imperfeita e estamos sob domínio da aleatoriedade. É assim que as coisas funcionam no pôquer, nas finanças… e também no mundo dos negócios (por mais que a gente goste de acreditar que tudo possa ser planejado e antecipado…).

Como encarar os erros nos negócios?

Grande parte daquilo que se usa nos investimentos e no pôquer pode ser transposto para o mundo dos negócios.

Executivos, líderes e tomadores de decisão devem tomar medidas para errar menos. O uso do pensamento crítico (uma habilidade cognitiva tão negligenciada ultimamente…) e de modelos decisórios mais objetivos ajuda muito. Mas, ainda assim, existem limites e os erros não podem ser totalmente evitados.

E aí entra em cena a “mentalidade do jogador de pôquer”, para o qual a coisa mais importante não é ganhar nem perder, e sim “estar vivo para a próxima rodada”.

Assim, um executivo ou líder bem-sucedido, vendo por esta ótica, não é aquele que “acerta mais”, mas sim aquele que faz uma melhor gestão dos recursos, fazendo suas “apostas” (como profissional de finanças, eu odeio esta palavra…) com consciência de que os erros “fazem parte do modelo”, mas as perdas precisam ser limitadas e gerenciadas.

As empresas e organizações vitoriosas não são, necessariamente, as mais ousadas ou as mais inovadoras: São aquelas que “sobrevivem”. Pensar em termos de “expectativa matemática positiva” e em termos de limitação de perdas é algo que assegura (ou ajuda a assegurar) a sobrevivência no longo prazo.

Isso vale para investidores, traders, jogadores de pôquer e também para empresas.

 

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André Massaro

Orioli
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